De que forma chegamos ao sujeito contemporâneo?

Como vimos, o sujeito moderno tinha na repressão e no recalque, mecanismos de defesa para lidar com uma ordem simbólica relativamente estável (em relação à atual lógica neoliberal), ancorada em ideais coletivos. Porém, a transição do sujeito moderno para o contemporâneo representa uma mudança radical na constituição estrutural da subjetividade humana, pois esse sujeito emerge num cenário marcado pelo esvaziamento ou perda de legitimidade dos referenciais simbólicos que antes estruturam a subjetividade moderna e pela intensificação da performatividade e do narcisismo, como veremos a seguir.

Podemos partir da premissa apresentada por Joel Birman (2006), em que o sofrimento psíquico na atualidade não se inscreve mais no modelo do conflito intrapsíquico, mas sim no campo da fragilização da subjetividade. Ou seja, as novas formas de sofrimento psíquico se estruturam a partir do esvaziamento das formas simbólicas e da queda dos ideais que sustentavam a experiência subjetiva moderna. Birman articula os conceitos de espacialidade x temporalidade, dor x desalento, sofrimento x desamparo para explicitar o que foi dito acima.

Portanto, nessa perda da temporalidade da experiência do sujeito, que implica a ausência do futuro, a existência se restringe ao eterno presente. Com isso, a experiência do sujeito se limita à dimensão do espaço, colado que fica aos momentos do presente. Enfim, com essa perda vertiginosa da temporalidade, é também a alteridade que fica silenciada para o sujeito, de forma que, em consequência, é o desejo que se abole para o sujeito no exílio. Nessa perspectiva, o que está em pauta para o sujeito em exílio não é o que Freud denominou de desamparo, como condição de possibilidade do desejo e da alteridade para o sujeito, mas o desalento, na medida em que, inscrito na terra de ninguém, o sujeito não disporia mais de qualquer instância de apelo. Com efeito, essa seria a forma de subjetivação que delineia o sujeito na contemporaneidade e o sujeito do exílio como sua derivação maior na atualidade. Esse desalento se evidencia assim pela dor lancinante, uma vez que, pela ausência do desejo, do tempo e da alteridade, a subjetivação em questão é inconsistente, de modo que o sofrimento não poderia então ser promovido pelo sujeito. Com isso, o sujeito se esvai de maneira hemorrágica, de forma radical. (Birman, 2006, p. 137-138) 

Isso se dá, principalmente, pelo avanço do neoliberalismo e o colapso destas instituições que davam base para o psiquismo dos sujeitos, família, estado, religião, etc. Nesse discurso neoliberal, a responsabilidade coletiva é deslocada para o indivíduo, que se vê constantemente desamparado. Byung-Chul Han, em seu livro “A sociedade do cansaço” (2015), nomeia esse sujeito como o “sujeito do desempenho”, marcado pela autoexploração e pelo esgotamento. O sujeito da performance é ao mesmo tempo vítima e algoz de si mesmo. Ele diz: “O sujeito do desempenho acaba entregando-se à coação livre a fim de maximizar o seu desempenho. Assim ele explora a si mesmo. Ele é o explorador e ao mesmo tempo o explorado, o algoz e a vítima, o senhor e o escravo” (Han, 2015, pg. 104). O trecho a seguir reflete bem as consequências de um projeto de sociedade capitalista neoliberal e suas consequências para os sujeitos:

O sujeito de desempenho pós-moderno não está submisso a ninguém. Propriamente falando, não é mais sujeito, uma vez que esse conceito se caracteriza pela submissão (subject to, sujet à, sujeito a). Ele positiva, liberta-se para um projeto. A mudança de sujeito para projeto, porém, não suprime as coações. Em lugar da coação estranha, surge a autocoação, que se apresenta como liberdade. Essa evolução está estreitamente ligada com as relações de produção capitalista. A partir de um certo nível de produção, a autoexploração é essencialmente mais eficiente, muito mais produtiva que a exploração estranha, visto que caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. A sociedade do desempenho é uma sociedade da autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo até consumir-se completamente (burnout). Ele desenvolve nesse processo uma agressividade, que não raro se agudiza e desemboca num suicídio. O projeto se mostra como um projetil, que o sujeito de desempenho direciona contra si mesmo. (Han, 2015, pg. 101)

A partir deste trecho, compreendemos que a lógica neoliberal desloca a responsabilidade pelo progresso e sucesso social das instituições para o indivíduo, que passa a ser visto como empreendedor de si. Tal deslocamento transforma a coação externa em autocoação, disfarçada de liberdade de escolha. Com isso, o fracasso não é mais lido como expressão de contradições estruturais, mas como incapacidade individual. O discurso da positividade (que incentiva a busca por “ser sua melhor versão”) neutraliza a percepção de autoexploração, convertendo a violência simbólica e material em performance voluntária. Como resultado, o sujeito de desempenho se vê preso a um ciclo de exigência infinita, culpa e exaustão psíquica.

Dito isso, podemos acrescentar que o cenário atual é atravessado por um imperativo de gozo ilimitado, no qual tudo parece possível e, novamente, a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso recai inteiramente sobre o indivíduo. Nesse contexto, a lógica da castração perde sua eficácia simbólica, fragilizando a função mediadora do desejo. Como aponta Lacan, o supereu já não opera apenas como instância de interdição, como vimos em Freud, mas como mandamento de gozo: “O supereu é o imperativo de gozar” (Lacan, 1997, p. 177). Essa mutação, associada ao esvaziamento das instituições simbólicas e à ascensão do discurso capitalista, submete o sujeito contemporâneo a um comando feroz de produtividade, performance e autossuperação, mesmo em meio à precariedade afetiva e ao colapso das referências simbólicas.

Diante desse cenário, pode-se considerar como natural que as formas de sofrimento psíquico também mudassem. Como diz Christian Dunker em seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma (2015) o sofrimento psíquico hoje se manifesta em formas mais difusas e transversais, como a ansiedade crônica, o vazio existencial, os quadros borderline e as crises de identidade. 

Já se observou que, a partir dos anos 1950, o grande quadro clínico, o paradigma fundador da psicanálise, a saber, a histeria, teria “se desmanchado no ar”. As histerias de conversão, com seus ataques corporais e dissociações de consciência, entraram em rarefação. No lugar da “boa e velha histeria” surgem personalidades infantilizadas e dependentes, tipos ansiosos caracterizados por depressões narcísicas, formas psicossomáticas marcadas por adoecimentos crônicos e, para completar, loucuras histéricas, insubmissas e borderline. (Dunker, 2015, p. 182).

Ou seja, essa transição na forma de vida tem trazido novos desafios tanto para o sujeito contemporâneo quanto para a Psicanálise. Aquele que ainda não compreende o teor de seu sofrimento, e esta que precisa se reinventar.

Esse processo culmina em um modo de subjetivação marcado pela centralidade do eu e da imagem. É nesse contexto que o historiador Christopher Lasch (1983) propõe o conceito de “Cultura do Narcisismo”, fundamental para pensarmos sobre o tema. Segundo este, o eu é estruturado em função da visibilidade e do reconhecimento externo, criando um sujeito:

incompetente para administrar as impressoes que desperta nos outros; ávido por admiração (embora desdenhe daqueles que manipula para obte-la); dotado de uma fome implacável de experiências emocionais para preencher um vazio interior; aterrorizado pela morte e pelo envelhecimento (Lasch, 1983, pg. 99)

O sujeito se torna hipersensível a crítica, dependente da admiração alheia e incapaz de elaborar frustrações. O narcisismo, nesse sentido, não é mais uma patologia isolada, mas um traço geral da cultura. E nesse sentido, começam a surgir formas de adoecimento como os pacientes limítrofes (borderline ou estados limite), diz Lasch:

Nos últimos 25 anos, o paciente limítrofe, que confronta o psiquiatra não com sintomas bem definidos, mas com insatisfações difusas, tornou-se cada vez mais comum. Ele não sofre de fixações debilitantes, de fobias, ou da conversão de energia social reprimida em doenças dos nervos; em lugar disso, queixa-se de “insatisfações vagas e difusas com a vida” e sente que sua “existência amorfa é fútil e despropositada”. Descreve “sentimentos experimentados de forma sutil, mas difusa, de vazio e depressão”, “oscilações violentas de auto-estima” e “uma incapacidade geral de se relacionar com os outros”.  Ele vivencia “uma sensação de autoestima ampliada apenas quando se associa a figuras fortes que admira – figuras por quem deseja ser aceito e por quem precisa se sentir apoiado”. Embora cumpra com suas responsabilidades diárias e até alcance certo reconhecimento, a alegria escapa entre seus dedos, e muitas vezes ele sente que sua vida não vale a pena. (Lasch, 1983, pg. 98)

Percebemos aqui o paradoxo de um sujeito marcado pela oscilação. Ora sente-se grandioso (quando associado a alguém que admira), ora sente-se vazio (quando se depara consigo mesmo, sem as referências gloriosas). Podemos entender também que o termo “difusas” do trecho acima, pode estar associado justamente com a falta de referências simbólicas ou representações psíquicas, e a fragilidade de uma certa fantasia de onipotência, que traz consigo uma desqualificação de si que pode levar a sentimentos depressivos. Lasch prossegue na caracterização desse tipo de paciente que chega aos consultórios na atualidade:

A psicanálise, terapia surgida da experiência com diversos indivíduos gravemente deprimidos e moralmente rígidos que precisam fazer as pazes com um rigoroso “censor” interno, hoje se vê cada vez mais confrontada com uma “personalidade caótica e impulsiva”. Ela precisa lidar com pacientes que “encenam” seus conflitos em vez de reprimi-los ou sublimá-los. Esses pacientes, embora muitas vezes agradáveis, tendem a cultivar uma superficialidade protetora em suas relações emocionais. Eles não têm capacidade de luto, pois a intensidade de sua raiva contra objetos de amor perdidos, sobretudo contra os pais, impede-os de reviver experiências felizes ou guardá-las com carinho na memória. Embora não sejam reprimidos, e sim sexualmente promíscuos, tem dificuldade para “elaborar o impulso sexual” ou encarar o sexo com espirito lúdico. Evitam o envolvimento íntimo, que poderia liberar sentimentos intensos de raiva. Boa parte de sua personalidade é formada por defesas contra essa raiva e contra o sentimento de privação oral que se origina do estágio pré-edipiano do desenvolvimento psíquico. Com frequência, esses pacientes sofrem de hipocondria e se queixam de uma sensação de vazio interior. Eles nutrem fantasias de onipotência e acreditam fortemente em seu direito de explorar os outros e serem gratificados. Elementos arcaicos, punitivos e sádicos predominam nos supereus desses pacientes, que se conformam às normas sociais mais por medo de punição que por sentimento de culpa. Eles consideram seus próprios apetites e necessidades, ambos embebidos de raiva, muito perigosos e erigem defesas tão primitivas quanto os desejos que buscam aplacar” (Lasch, 1983, pg. 98)

Esse trecho confirma a tese de Birman de que o sujeito contemporâneo vive sob o regime da espacialização do psiquismo, do presente eterno e da compulsão. Ao não conseguir transformar o trauma em uma narrativa possível, o sujeito se entrega à repetição estéril e à dor que não encontra endereçamento. Uma paralisia subjetiva pode surgir em consequência disso, ou como disse Birman anteriormente, um sujeito que “se esvai de maneira hemorrágica, de forma radical” (Birman, 2023, p. 153), sem projeto de existência e sem horizonte simbólico. Logo, diante de todos esses dados, fica evidente que a clínica psicanalítica já não é mais a mesma de anos atrás, e precisa criar novas formas de intervenção.

Em seu texto “A Psicanálise “de fronteira”: Clínica Psicanalítica e Neogênese”, Silvia Bleichmar (2005) aponta que diante da perda de referências simbólicas e da impossibilidade de inscrição de experiências no inconsciente, proliferam formas de sofrimento que escapam à lógica do sintoma. Fala-se, então, em uma “neogênese clínica”, marcada por sujeitos que não demandam por interpretação, mas por sustentação e acolhimento. Ou seja, a interpretação dos casos clínicos em sujeitos neuróticos da modernidade, vem dando lugar a uma outra forma de intervenção, baseada mais na relação afetiva e transferencial entre analista x analisando, procurando dotar os sujeitos da possibilidade de criar representações psíquicas, para posteriormente ter a possibilidade de recalcar e criar sintomas. Diz ela:

Disto se trata quando falamos em psicanálise de fronteira: nas fronteiras da tópica, nas fronteiras da relação intersubjetiva com o semelhante, o ser humano se constitui sob os modos mediante os quais o objeto exerce o seu ofício não de modelador, senão de produtor mesmo de representações, e de sistemas em conflito, de topos aos quais fixar estas representações. A peculiaridade do objeto, neste caso, é que se trata de “um objeto outro”, desprendido do outro, “libidinal” no sentido mais rigoroso do termo, efeito de introjeções às quais o próprio gerador é estranho em seu exercício. A análise recaptura estes movimentos fundantes e os faz circular no interior do espaço que cria. (Bleichmar, 2005, pg. 203)

Lemos este trecho como uma proposta de uma Psicanálise menos interpretativa do que propositiva, no sentido do que se pode criar de espaço propício à formação de representações e à elaboração psíquica “no entre” das tópicas, e na relação transferencial com o paciente, abrindo espaço para uma relação mais interventiva, empática e imersiva na experiência de análise do inconsciente, “recusando-se a limitá-las ao estreito marco das neuroses de transferência” (pg. 203) e abrindo-se para as novas subjetividades emergentes do contemporâneo. A seguir, faremos um apanhado dos conceitos trazidos por Joel Birman em seu livro “O sujeito na contemporaneidade” e sua relação com o vazio existencial contemporâneo.

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