O psicanalista Joel Birman, em seu livro “O sujeito na contemporaneidade: espaço, dor e desalento na atualidade” (2006) nos traz conceituações fundamentais para compreendermos o sujeito contemporâneo. Neste livro, podemos entender como a lógica do discurso neoliberal vem criando alterações no modo de vida dos sujeitos, tornando-os reféns da imagem narcísica, da espacialidade expandida, do apagamento da alteridade e, principalmente, da nulidade de sentido na existência.
Birman inicia seu livro fazendo uma articulação da experiência do sonhar com a dor, o vazio existencial sentido pelo sujeito contemporâneo. Para compreendermos melhor, podemos iniciar com o trecho a seguir:
O que emergia na experiência do sonhar era agora a dor, e não mais a realização do desejo, pela mediação e inflexão da compulsão à repetição. A dor se impunha então ao psiquismo, de maneira ao mesmo tempo incontrolável e compulsiva, mas como um movimento estruturante do psiquismo, no entanto, para dominar a dor resultante de um trauma. Portanto, se pela repetição o psiquismo buscava compulsivamente realizar a simbolização de um trauma, procurando transformar a dor num símbolo, o que importa ressaltar é que neste registro tanto o símbolo se encontrava inexistente, nos sonhos da neurose traumática, quanto não ocorria a realização do desejo, nesta modalidade de sonho, cara e coroa que seriam da mesma moeda. Se a dor se faz assim pregnante, no entanto, isso evidencia que é a espacialização que ocupa agora a totalidade da experiência psíquica, que perderia então sua potência temporalizante. É apenas o espaço que ocupa agora o campo da experiência, e não mais o tempo, pela repetição compulsiva do mesmo, isto é, pelo retorno terrorífico das imagens traumáticas. Estas então não mais se temporalizam e se simbolizam, permanecendo atadas à imobilidade do acontecimento traumático. É a imagem, na sua dimensão estática e espacial ao mesmo tempo, na sua ataraxia, enfim, o que se impõe no psiquismo. (Birman, 2006, pg. 27)
Podemos extrair alguns entendimentos do trecho acima. Primeiro no que se refere a compreender a dor do sujeito contemporâneo como um processo de repetição, permeada pela destrutividade vinda da pulsão de morte. Segundo quando se refere a repetição como uma forma de lidar com um trauma psíquico, tentando atribuir-lhe algum sentido, e falhando miseravelmente, justamente por não haver representação psíquica, e as intensidades pulsionais terem a peculiaridade de aparecerem através da descarga em ato, sem qualquer elaboração. O terceiro ponto poderia ser pensado no sentido de que a espacialização toma conta da experiência psíquica em detrimento da temporalização, pois, como sabemos, por exemplo, temos o imediatismo na palma de nossas mãos, em nossos smartphones, em que podemos estar em vários lugares ao mesmo tempo, de forma imediata e ilusória. Soterrados de informações instantâneas e sem termos tempo o suficiente para simbolizar o que se vê, preocupados com performance, aparência e desempenho. Tudo isto vai tornando a experiência humana cada vez mais vazia de sentido, fugaz.
Os laços sociais se restringiriam então ao campo da imagem, de maneira que a cena social se reduziria à retórica do narcisismo. Seria a produção e a exaltação desenfreada das imagens de si mesmo, para o deleite do outro, num campo sempre imantado pela sedução, o que passaria a dar as cartas do jogo na estética performática do espetáculo. (Birman, 2006, pg. 55)
Essa redução da experiência social ao narcisismo performático reforça a espacialização em detrimento da temporalização, já que a imagem opera no imediatismo, sem a mediação simbólica do tempo, ou seja, estamos falando sobre instantaneidade, sem tempo o suficiente para a elaboração do que se vê.
Joel Birman complementa o nosso argumento anterior em três pontos, quando diz que “constituiu-se uma modalidade de subjetividade que sonha pouco, ou mesmo não sonha, em função da impossibilidade de sustentação do desejo e da simbolização daí decorrente.” (Birman, 2006, pg. 23). Ou seja, não sonhar nos fixa à dor de um eterno presente. E esse eterno presente, tende a se repetir:
A compulsão à repetição, em contrapartida, como repetição em atos que se realizam no campo da experiência da transferência, se reduz principalmente à dimensão do espaço. Portanto, enquanto repetição do mesmo, a compulsão à repetição não se inscreve no registro do tempo e no registro simbólico, como ocorre com a evocação e a rememoração. (Birman, 2006, pg. 28)
Fica evidente para nós que a compulsão à repetição se reatualiza em instantes, não permitindo a elaboração simbólica, e sim aparecendo em descargas pulsionais em ato, em um ciclo eterno. Como veremos a seguir, essa dinâmica, redefine a clínica psicanalítica, já que o sofrimento contemporâneo (marcado pelo excesso e pela falha na angústia-sinal) difere radicalmente das neuroses clássicas, nas quais o conflito psíquico ainda se organizava sob a lógica do recalque e da formação de sintomas simbólicos.
Assim, o discurso freudiano transformou a sua concepção da experiência psicanalítica. Se essa foi concebida inicialmente como fundada na interpretação e em seguida como uma analítica da resistência, neste novo contexto a experiência psicanalítica estaria centrada na repetição. Isso porque a compulsão à repetição se disseminava pelo espaço analítico, sem qualquer limite e fronteira, impondo-se agora como a sua problemática fundamental. Desde então, no entanto, esta predominância do registro do espaço sobre o do tempo vem se incrementando cada vez mais na nossa tradição, de maneira que a dimensão de dor ocupa cada vez mais um lugar privilegiado no psiquismo em face do registro do desejo. (Birman, 2006, pg. 29)
Como nós, psicanalistas, em nossas clínicas, ou instituições que atuamos, vamos lidar com essa espacialidade que sobressai sobre a temporalidade? Como vamos lidar com essa compulsividade repetitiva e destrutiva de nossos pacientes que têm tido grandes dificuldades de simbolização devido a todas as influências da cultura contemporânea em seu psiquismo? Podemos iniciar nosso pensamento refletindo sobre conceitos que o Birman traz como base, retomando a discussão sobre angústia sinal, neuroses atuais e trauma, que já estavam no início da obra freudiana.
De início, podemos pensar a angústia-sinal como uma fundamental operação psíquica que permite ao sujeito antecipar um perigo simbolicamente e, com isso, proteger-se de seu aparecimento traumático. Como explica Birman:
Essa temporalização antecipante pressupõe a simbolização de uma ausência pela mediação de uma presença, isto é, de tornar patente algo que é de ordem apenas virtual. Trata-se daquilo que Freud denominou angústia-sinal ou sinal de angústia, que seria o motor da antecipação e da proteção do psiquismo em face dos perigos possíveis. (Birman, 2006, p. 43)
Ao trazer esse conceito freudiano, Birman o reinsere na problemática da subjetividade contemporânea, destacando como a falha desse mecanismo antecipa a desproteção psíquica do sujeito diante de acontecimentos traumáticos. Ou seja, na ausência da angústia-sinal, o sujeito não consegue mais se preparar para o que está por vir simbolicamente, sendo capturado de forma abrupta e desamparada pela intensidade da experiência traumática. O autor afirma que:
O trauma seria então a contrapartida do excesso, que paralisa o psiquismo na sua mobilidade. Isso porque o eu não consegue se precaver dos perigos materializados por acontecimentos imprevisíveis, pela sua antecipação sob a forma de angústia-sinal. (Birman, 2006, p. 74)
Nessa perspectiva, o que vemos aqui é uma importância cada vez maior do registro do corpo e da dor como evidência de uma falência estrutural no funcionamento simbólico do psiquismo. A angústia-sinal, que em outro momento operava como mediadora entre o real e o simbólico, dá lugar à intensidade vivenciada de modo bruto, em atos ou descargas pulsionais que escapam à elaboração. Birman resume essa situação ao afirmar que:
O pensamento e a linguagem tendem a desaparecer como eixos ordenadores do mal-estar na atualidade, enquanto assumiam anteriormente uma posição nobre na descrição do mal-estar.” (Birman, 2006, p. 67)
E prossegue dizendo que:
Isso nos indica que a pregnância assumida hoje pelo registro do corpo revela a presença de uma falha crucial no mecanismo de angústia-sinal no psiquismo e a fragilidade simbólica na antecipação do perigo. Isso porque seriam tais mecanismos que constituiriam a angústia-sinal e que protegeriam o psiquismo do imprevisível. Ou seja, se os sintomas acima referidos dominam a experiência contemporânea do mal-estar, algo de fundamental se produziu na subjetividade, que a tornou incapaz de antecipar o perigo e regular assim suas relações com o mundo. (Birman, 2006, p. 75)
Sendo assim, o sujeito contemporâneo vê-se submetido a uma experiência psíquica marcada pela crueldade do trauma, pelo apagamento da linguagem e pela fragilidade dos recursos simbólicos. No lugar da antecipação simbólica do perigo, o que se vê agora é a pura repetição dos excessos pulsionais, vivenciados no corpo, nos atos e nas intensidades desreguladas do sofrimento psíquico. Como pontua Birman (2006, p. 83), “Diante dessa impossibilidade (de elaboração), a descarga de excitabilidade se impõe sob a forma de manifestações emocionais incontroláveis”. Essa dinâmica revela a compulsão como modalidade de ação que, por nunca alcançar seu objetivo, repete-se infinitamente num movimento estéril: “impõe-se ao psiquismo sem que o eu possa deliberar sobre o impulso que inevitavelmente se impõe” (Birman, 2006, p. 84).
Esse circuito pulsional não apenas se articula com a pulsão de morte, mas também expõe a falha estrutural na angústia-sinal freudiana – mecanismo que, ao falhar, deixa o sujeito contemporâneo exposto ao trauma como excesso bruto, e não como conflito passível de elaboração. Sem a mediação da fantasia e com a erosão da capacidade de desejar, instaura-se o que Birman chama de “deserto do real”: um cenário em que o sensível esmaga o simbólico e o sujeito é reduzido à impotência.
Nesse contexto, o excesso traumático, irrepresentável, inscreve-se diretamente no corpo através de atos compulsivos e repetições vazias – e é aqui que Birman (2006, p. 101) retoma Freud para destacar o protagonismo das neuroses atuais, nas quais a descarga substitui o recalque. Essa clínica do excesso é descrita com precisão pelo autor: “Em face do excesso que invade e se alastra sem limites, o psíquico procura dele se livrar pela ação para não correr o risco de ficar paralisado pela disseminação da angústia do real” (p. 96). Ou então, “Para a preservação do narcisismo, o eu prefere explodir do que implodir” (p. 97), optando pela descarga violenta em detrimento da implosão psíquica.
O resultado disso tudo é a hegemonia do espaço sobre o tempo: “na falta da temporalização e da simbolização, é o espaço que se faz presente na estase e na descarga” (p. 102). Essa primazia do espacial – que já analisamos em relação ao imediatismo digital e ao narcisismo performático – culmina no que Birman (2006, p. 104) identifica como a marca traumática da contemporaneidade: “É o trauma que está então sempre em questão, num mundo marcado pela imprevisibilidade e pela instabilidade dos códigos simbólicos estabelecidos”. Ou seja, podemos entender diante de tudo que foi dito neste artigo, que a lógica neoliberal tem contribuído diretamente para o surgimento de novas formas de adoecimento psíquico, e que se faz necessário um resgate da temporalidade no laço social e no setting analítico, de modo tenhamos a oportunidade, enquanto sujeitos, de elaborarmos as intensidades que nos permeiam e não adoeçamos ainda mais, enquanto sociedade, diante de uma realidade cada vez mais traumática e imprevisível.