De início, podemos considerar a perspectiva Freudiana, segundo a qual o sujeito da modernidade é constituído a partir de uma estrutura psíquica baseada na castração simbólica, no recalque e na repressão das pulsões. Na sociedade da época, este sujeito era constituído através da regulação por normas sociais, ideais coletivos muito presentes e estruturas institucionais sólidas, como o Estado, a família, a religião, etc. Aqui, o desejo, a lei e a culpa configuram a estrutura neurótica predominante na época. Tendo isso em mente, podemos considerar como fundamental a atuação da instância psíquica reguladora dessas normatividades denominada superego na formação dos sintomas neuróticos, justamente por impor limites e conter o desejo humano.
A cultura da modernidade, tinha a intenção de reprimir impulsos sexuais e agressivos com a finalidade de tornar possível a vida em comunidade, que é o que veremos a seguir nesse trecho do texto “O mal estar na civilização” (1930/2010):
A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio [de energia]. Em consequência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração. O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis. A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas. (Freud, 1930, pg. 29)
Neste texto, podemos entender como a agressividade recalcada é fonte de sofrimento para o indivíduo sendo a raiz de seu mal estar. Pois, segundo Freud “O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” (Freud, 1930, pg. 31). Reprimir impulsos agressivos tornou possível que não vivêssemos diante da barbárie, trazendo uma suposta segurança de viver em comunidade. Porém, também trouxe consequências psíquicas. Ou seja, um sofrimento, na forma de “um mal-estar atormentador, uma espécie de ansiedade, se impedidos de praticar certas ações.” (Freud, 1930, pg. 42).
Neste momento, será fundamental trazermos o conceito de sentimento de culpa, pois esse texto de Freud tem “a intenção de representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização, e de demonstrar que o preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa.” (Freud, 1930, pg. 42)
Freud articula a renúncia aos impulsos sexuais e agressivos com a gênese do sentimento de culpa e do mal estar, dizendo que:
Conhecemos, assim, duas origens do sentimento de culpa: uma que surge do medo de uma autoridade, e outra, posterior, que surge do medo do superego. A primeira insiste numa renúncia às satisfações instintivas; a segunda, ao mesmo tempo em que faz isso exige punição, de uma vez que a continuação dos desejos proibidos não pode ser escondida do superego. (Freud, 1930, pg. 38)
O conflito psíquico se instaura no momento em que o ego se vê diante das moções pulsionais do id entrando em conflito com a instância reguladora das exigências normativas da sociedade no psiquismo, que é o superego. Segundo Freud “O superego atormenta o ego com sentimentos de culpa e necessidade de punição”. (Freud, 1930, pg. 36). Ainda segundo ele:
Sua agressividade é introjetada, internalizada; ela é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego. Aí, é assumida por uma parte do ego, que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de ‘consciência’, está pronta para pôr em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A tensão entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é por nós chamada de sentimento de culpa; expressa-se como uma necessidade de punição. A civilização, portanto, consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, enfraquecendo-o, desarmando-o e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade conquistada. (Freud, 1930, pg. 36)
Essa metáfora nos mostra como o superego se estabelece como um agente de controle interno, evidenciando a vigilância psíquica que se instaura decorrente da repressão cultural das intensidades pulsionais. Sendo assim, o sentimento de culpa pode ser considerado como consequência da renúncia que cada sujeito faz de suas moções pulsionais agressivas em prol do pacto civilizatório. A agressividade inerente de todo sujeito não deixa de existir quando renunciada, pelo contrário, o sujeito a introjeta gerando um conflito entre o ego e o superego. Dessa forma, a função do superego consiste em:
Manter a vigilância sobre as ações e as intenções do ego e julgá-las, exercendo sua censura. O sentimento de culpa, a severidade do superego, é, portanto, o mesmo que a severidade da consciência. É a percepção que o ego tem de estar sendo vigiado dessa maneira, a avaliação da tensão entre os seus próprios esforços e as exigências do superego.
(Freud, 1930, pg. 43).
Esse conflito interno que se intensifica com a vigilância do superego, prepara o terreno para pensarmos a compulsão à repetição e sua articulação com a pulsão de morte. Pois, partimos da premissa de Freud de que “qualquer restrição dessa agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição” (Freud, 1930, pg. 33) Ou seja, que essa necessidade de punição a que Freud se referia, estando atrelada ao sentimento de culpa, pode levar o sujeito à compulsões repetitivas e a destrutividade do eu.
A compulsão para repetir e o caráter conservador da vida instintiva atraíram minha atenção. Partindo de especulações sobre o começo da vida e de paralelos biológicos, concluí que, ao lado do instinto para preservar a substância viva e para reuni-la em unidades cada vez maiores, deveria haver outro instinto, contrário àquele, buscando dissolver essas unidades e conduzi-las de volta a seu estado primevo e inorgânico. Isso equivalia a dizer que, assim como Eros, existia também um instinto de morte. (Freud, 1930, pg. 33)
Nestes casos de elevada autodestrutividade, os sujeitos parecem reviver experiências dolorosas mesmo sem obter qualquer satisfação com isso. Segundo Freud (1920), o paciente está obrigado a repetir o recalcado como uma experiência presente, em vez de recordá-lo como pertencente ao passado. Na compulsão à repetição, há uma parcela de agressividade voltada para si. Esta que, segundo Freud, dá origem ao sentimento de culpa. Diz o autor:
A origem do sentimento de culpa está na agressividade recalcada. O sujeito volta contra si mesmo a agressividade que gostaria de dirigir ao objeto amado, mas que não pode expressar. Logo, A agressividade é introjetada, internalizada, de fato é enviada de volta para onde proveio — ou seja, para o próprio eu. (Freud, 1930, pg. 36)
Muitas vezes associadas à pulsão de morte, essa compulsão indica que este sujeito resiste à elaboração simbólica e algo insiste em retornar. Sendo assim, segundo Freud (1915), o sintoma surge como uma formação de compromisso entre o desejo inconsciente e a censura moral. Por isso o recalque e a culpa assumem papel central na criação de uma grande massa de sujeitos neuróticos, e muitas vezes, fadados a repetições compulsivas, difíceis de serem elaboradas.
Joel Birman (2006), complementa nosso pensamento quando coloca que a dor do sujeito da modernidade estava centrada no conflito psíquico (ego x superego, desejo x interdição). Diz ele, citando Freud:
Assim, em “A moral sexual ‘civilizada’ e a doença nervosa dos tempos modernos”, ensaio publicado em 1908, Freud indicava que o que estava em questão nesta problemática era a moral presente na modernidade, que seria a condição de possibilidade das perturbações nervosas. Isso porque a dita moral incidiria efetivamente sobre a existência erótica das individualidades, impondo, assim, restrições e imperativos tão insuportáveis que seriam capazes de perturbar, de maneira indelével, o funcionamento do espírito. (Birman, 2006, p. 52).
Logo, a análise desses sujeitos visava trazer à consciência aquilo que havia sido recalcado, promovendo assim, uma elaboração simbólica. Havia, nesse tempo, uma organização psíquica que favorecia o processo de subjetivação por meio da palavra, da associação livre, do conflito e da interpretação.
Este sujeito, ainda que cindido (entre desejo x interdição), também era dotado de referências estáveis, de narrativas construídas e de um lugar no mundo social. Isto facilitava a compreensão dos casos por estarem dentro de uma lógica, uma consistência simbólica que permitia o trabalho clínico.
Porém, a situação começa a se alterar no século XX. Com o avanço do neoliberalismo, a cultura também se modifica, trazendo consigo mudanças bruscas na forma de sofrimento psíquico dos sujeitos. O sujeito da interdição dá lugar ao sujeito do prazer, do desempenho e do narcisismo:
As novas formas de mal-estar se apresentaram com todo o barulho a que tinham direito. No lugar das antigas modalidades de sofrimentos centrados no conflito psíquico (e no desamparo), nos quais se opunham os imperativos das pulsões e os das interdições morais, o mal-estar se evidencia agora como dor, inscrevendo-se nos registros do corpo, da ação e das intensidades. (Birman, 2006, p. 56).
Diante das novas formas de sofrimento, a clínica psicanalítica se vê diante de um desafio fundamental, que é o de se reinventar. Redimensionar a relevância da interpretatividade dos discursos e apostar no ajustamento da técnica psicanalítica à escuta da singularidade dos sintomas contemporâneos. Nesse percurso, trata-se de sustentar a produção de representações psíquicas (condição para o trabalho de elaboração) e favorecer a restituição das ligações que permitam lidar com as intensidades pulsionais não pela via do ato, mas na temporalidade própria do trabalho psíquico, como veremos adiante neste trabalho.